O certo é que prezamos a destruição. Qualquer coisa chegando ao fim, eis o que nos interessa. Fotografamos ruínas e colecionamos imagens de casas enfermas, desenganadas pelo tempo, e apreciamos o turismo por vilarejos decadentes, prestes a sumir do mapa. A imagem do velho edifício implodido nos mantêm cativos diante da tv. O que move a ferrugem não é mistério para nós: conhecemos essa fome - e a respeitamos. A árvore doente do passeio público nos interessa mais do que as crianças desaparecidas. Comovidos, chegamos a abraçar a velha figueira ameaçada, pretextando solidariedade. Mas não somos solidários, não se engane. Apenas queremos estar por perto na hora final. O certo é que apreciamos a destruição. Casais nos falam de crises, da reta final, da beira do precipício. Ouvimos interessados os pormenores da autópsia conjugal, queremos saber em que momento, as vísceras do encanto deixaram de cumprir seu papel, queremos conhecer tudo que fez do desejo azinhavre, mancha agônica, bolor. Existe desamparo maior do que num velho carro entregue ao pó junto ao meio-fio? O disco riscado e o livro que perdeu folhas e palavras são nossos entes queridos. O amigo que faz aniversário recebe nossos cumprimentos, pois deu um passo à frente, rumo ao fim. Vamos a velórios de parentes e conhecidos com um olho vermelho de consolo, o outro verde de curiosidade: quem visitaremos inerte da próxima vez? Amamos o corroído (pontes, trens, viadutos), o que está prestes a se perder. Respeitamos os desgastado, o roto, o que se esfarelou, majestoso. E esperamos. Porque algo foi posto em marcha, está a caminho.
Já faz um bom tempo que não escrevemos mais nada aqui. O último post foi no ano passado, em outubro. Muitas coisas aconteceram, principalmente coisas ruins. Mas é claro que não restrinjo somente a coisas que aconteceram comigo. Houve trocas de governos. Aumento de 70% para deputados (federais e estaduais), senadores e vereadores, votado por eles mesmos; houve ex-governadores reclamando suas pensões vitalícias, pois haviam ficado a frente de seus respectivos estados durante 8 dias; até um senador gaúcho, que em anos anteriores fora governador do estado, pediu sua pensãozinha retroativa, e justificou alegando não estar conseguindo manter sua residência e sua família com seu salário atual.
Acho que 70% foi pouco.
Ainda nesse meio tempo, houve cheias e secas, e muitas mortes por conta delas.
Mas nem todas as notícias são ruins. O Big Brother voltou, e voltou de cara nova. Agora é possível sair no soco sem ter como prejuízo a saída imediata da casa. Maravilha! Iniciativa de fomentar o "barraco" na tv. Mas não vou me ater a detalhes, afinal, muitos desses acontecimentos não têm tanta importância assim. São coisas que irão se diluir entre as formosas curvas de mulatas e melodiosos sambas-enredo neste próximo carnaval.
Audiência
Sob histórica enxurrada de informações
Vemos a morte desmoronar
sobre os telhados da razão
Inundar as arestas dos corações espalhados
sobre um corpo instável e esfarelento
Tudo esfarela-se umidamente
Discutem sobre imprudência e fatalidade
Alguns celebram a vida face à morte
furtam pequenos “futuros da nação”
desse violento Rio de sangue recém formado
Que desce
e desce
Onde cardumes de pessoas bóiam e afundam
num [Rio de sangue em
Janeiro]
(...)
Outros boiam e afundam
em telefonemas e torpedos
Em frente à televisão
Nosso Grande Irmão está de aniversário
Décimo primeiro aniversário
Um carismático intelectualóide com seu filtro solar
Você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.
Da metade dos anos 90 para cá surgiu um cineasta incrível, cheio de idéias, e com características marcantes ao longo de seus filmes. Ao lado de outros grandes cineastas lançados no mundo do cinema nesta mesma época, como Paul Thomas Anderson e Quentin Tarantino: Wes Anderson.
Ele pode ser citado ao lado de Tarantino e de Paul Thomas, pois são três cineastas que definitivamente fizeram o chamado “Cinema de Autor” na década de 90 e adiante. Para se chegar a esta conclusão, basta pensar que se um filme de qualquer um dos três estiver passando na TV, você rapidamente saberá de qual dos três é o filme. Claro, isso quem já conhece os filmes deles e é familiarizado com as suas características. E até me arrisco um pouco mais. Acho que são estes diretores, os mais significativos em termos de criatividade no cinema americano dos anos 90 pra cá. Quer ver?
Cães de Aluguel – 1992 – Tarantino
Pulp Fiction – 1994 – Tarantino
Jogada de Risco – 1996 – Paul Thomas
Pura Adrenalina – 1996 – Wes Anderson
Jackie Brown – 1997 – Tarantino
Boogie Nights – 1997 – Paul Thomas
Três é Demais – 1998 – Wes Anderson
Magnólia – 1999 – Paul Thomas
Os Excêntricos Tenenbaums – 2001 – Wes Anderson
Embriagado de Amor – 2002 – Paul Thomas
Kill Bill – Vol 1 – 2003 – Tarantino
Kill Bill – Vol 2 – 2004 – Tarantino
A Vida Marinha de Steve Zissou – 2004 – Wes Anderson
Sangue Negro – 2007 – Paul Thomas
A Prova de Morte – 2007 – Tarantino
Viagem a Darjeeling – 2007 – Wes Anderson
Bastardos Inglórios – 2009 – Tarantino
O Fantástico Sr. Raposo – 2009 – Wes Anderson
*em negrito os filmes que eu considero obras-primas.
É impossível não reconhecer a importância que eles tiveram para o cinema em menos de 20 anos de atividade. E é nessa linha de raciocínio com que eu venho abordar resumidamente o cinema mágico, criativo e aconchegante de Wes Anderson.
Fica claro, desde “Pura Adrenalina”, que Wes Anderson respeita e ama o cinema. Acho que talvez essas duas características sejam das mais importantes para alguém realizar filmes. Ao meu ponto de vista, as idéias criativas dele se unem de alguma forma ao cinema clássico. A vontade de contar uma história, e contar ela da melhor forma possível, com todos os detalhes a que temos direito. Este filme que foi escrito juntamente com o amigo Owen Wilson, e interpretado pelo próprio Owen e pelo irmão Luke, talvez seja o mais simples de Anderson, mas já é possível notar claramente a sua característica de contar histórias.
A partir do próximo filme, “Três é Demais” (mais uma vez escrito com Owen Wilson), protagonizado por um Jason Schwartzman então com 18 anos de idade, já fica mais clara a maneira com que Anderson domina as posições de câmera a sua maneira. Técnica que ficará ainda mais marcante nos seus próximos três filmes. Além de ângulos de câmera diferenciados como característica, Anderson já coloca em prática a excelente trilha-sonora que acompanha seus filmes, e o uso de slowmotion em determinadas cenas. Vale lembrar que Anderson tinha apenas 29 anos quando fez este filme.
Em seguida, vêm o que eu chamo de “A Trinca de Ouro” de Wes Anderson: “Os Excêntricos Tenenbaums”,” A Vida Marinha de Steve Zissou”, e “ Viagem a Darjeeling”. Anderson chega ao ápice da criatividade. Vai a um patamar diferenciado, aonde deixa de ser um cineasta em ascensão, para tomar o seu lugar como um dos grandes diretores americanos do começo de século XXI. Com um elenco espetacular, Anderson transborda inspiração e faz uso de todas as suas características pessoais como realizador. Nos roteiros, parcerias com Noah Baumbach (A Lula e a Baleia), Roman Coppola (sim, filho do Coppola Pai), e com Owen Wilson.
No fim de 2009, é lançado o seu filme de animação, “O Fantástico Sr. Raposo”, baseado no livro de Roald Dahl, mesmo autor de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”. Talvez o seu projeto mais ambicioso, mas que é uma prova definitiva da qualidade de Anderson. A maioria das técnicas aplicadas em seus outros filmes, estão no Sr. Raposo.
Eu sei que os comentários sobre os filmes são breves, mas quando pensei em escrever este post, pensava exclusivamente sobre a maneira com que Anderson conduz belamente os seus filmes, e não em fazer críticas aos filmes em si. A percepção que eu tenho, é que Anderson faz os seus filmes com o máximo de cuidado possível. Deve ser um crítico de seu próprio trabalho, a ponto de eles chegarem a quase perfeição estética.
E Anderson, continue assim, pois eu fico feliz sempre que separo algumas horas do meu dia para entrar na sua mente excêntrica e me deliciar com o seu trabalho.
Tendo em vista que eu disponho de um espaço na internet para fazer o que eu bem entender, me sinto na obrigação de compartilhar duas genialidades da música com você. E “você” significa quem quer que seja. Qualquer pessoa que veja esta página. Não deixe de ver os vídeos. Se fossem ruins não estariam aqui. :)
É um absurdo o que essas notas de baixo me fazem viajar. Quem me mostrou o Jaco, foi o Christian. O Pizzolatto. Aquele cara que tem um blog chamado Cadela Desalmada. Faz um tempo que eu tô vidrado em som de contrabaixo, e ele falou:
- Tchê, dá uma olhada nisso aqui então:
É insano de bom.
E uma música incrível que eu ando escutando há semanas, é essa aqui! Não preciso fazer comentários. A guitarra esgoelada do Zappa faz isso por mim!
Tangenciando um pouco o clima cinematográfico, trago agora em forma de poema o resultado de duas frases que, em dois determinados momentos distintos, me fizeram refletir sobre um assunto muito corrente atualmente. A primeira frase corresponde a um comentário de um amigo meu sobre um outro amigo nosso: " Cara, eu olhei pros olhos dele, e parecia que ele não tinha alma". A outra frase corresponde a um novo escritor, cujo comentário me fez lembrar da frase desse meu amigo: " Nós estamos inseridos na história; fazemos parte dela; devemos contá-la de alguma forma". Esses dois comentários aparentemente sem conexão alguma, convergiram dentro de uma ideia que acabou resultando nas linhas abaixo.
Eu gosto muito de filmes. Quem me conhece sabe disso. Quando eu vejo um filme e ele me agrada muito, causa uma certa revolução dentro de mim. Provavelmente isso acontece com outras pessoas também, mas geralmente ninguém nunca fala sobre isso. A primeira coisa a responder quando alguém te pergunta sobre tal filme, é:
- Bah, é muito bom! Do caralho! Esse filme é demais! Vale a pena! Ou: - Putz, não curti! Ih, aquele filme é ruim! É uma merda! Chaaaato!
Claro. Existem situações e situações. Tem aquele filme pipoca que tu vai ver com os amigos, ou ainda aquele filme que tu assiste com namorada (o) pra passar um tempo junto com ela (e). Mas é diferente quando tu separa um tempo para assistir AQUELE filme. Aquele que tu queria ver já faz algum tempo, que tu conhece algum ator, algum diretor, tem referências variadas, etc. Bom, esse texto todo era só pra contar um pouco da experiência que eu tive com três filmes recentes que assisti. O primeiro deles, O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella.
O meu interesse no filme era grande, já que ele ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2010, batendo A Fita Branca, filme de um dos meus diretores preferidos, Michael Haneke. E antes de ver o filme eu meio que tinha raiva dele. Como assim ganhar de um filme do Haneke? É brincandeira, né? E pensava que era mais uma daquelas coisas típicas de Oscar, na qual o vencedor nem sempre é um grande filme (vide casos muito recentes como Crash – No Limite, Quem Quer ser um Milionário e Guerra ao Terror. E a surpresa foi gigante. O Segredo de Seus Olhos é um filme que merecia vencer não apenas na categoria de filme estrangeiro, mas talvez na categoria principal de melhor filme. É infinitamente superior a Guerra ao Terror. A tão comentada cena em plano-seqüência é realmente incrível. Tem cerca de 6 minutos e quando ela terminou, eu revi e revi até cansar de tentar descobrir onde estavam os cortes escondidos. O Oscar já perdeu a credibilidade faz um tempo, então isso não quer dizer muita coisa. E as qualidades de um filme sempre superam o fato de ter ou não sido premiado. As injustiças em premiações cinematográficas já fazem parte da história do cinema. Além do que, filmes são pessoais. Certamente alguém não compartilha a mesma opinião que eu sobre este filme.
Partindo para onde quero chegar: o filme mexeu comigo. Deu partida em pensamentos incoerentes que viriam a se formar com as experiências a seguir. Passado, presente, futuro. Conectando-me diretamente com outro filme que assisti: Mr. Nobody, do belga Jaco Van Daormel.
Foi indicação de um amigo. E puta que pariu, que indicação. É um filme extremamente criativo do começo ao fim, em todos os momentos. Eu não consegui fazer muita coisa após assistir, me encontrava em um estado inerte, com o pensamento viajando por várias épocas da minha vida, dando um pulo em atalhos obscuros que o meu cérebro produzia. Tudo acompanhado pela trilha-sonora.
O meu corpo paralisado enquanto o meu cérebro viajava por lugares imaginários desconhecidos.
Antes de chegar ao terceiro filme, eu encontrei este vídeo, onde o Tom Waits lê um poema do Bukowski.
O que dizer? Hahaha. Ele. O velho fudido. O marginal. Escreveu isso. Com toda a alma que ele aparentava não ter. As poesias são de uma sensibilidade impressionante. É um dos meus escritores preferidos. Sempre vai ser. E o Tom Waits recitando. É bom demais.
E ontem assisti o Noites de Cabíria, do Fellini, lá na Casa de Cultura. Está tendo um ciclo especial de cinema italiano em função da reabertura da Sala Norberto Lubisco. Porra, vi o filme em película. A experiência do cinemão antigo. Aí o que acontece é meio mágico, quando o filme é tão bom quanto a experiência. O 8 ½ do Fellini tá no meu Top 5 de todos os tempos, e eu não esperava gostar tanto do Noites. Mas a qualidade de quem realiza o filme é tão grande que não tem como não tratar como Obra Prima. O final do filme me arrebentou. E ali estava eu, naquela salinha confortável de 52 lugares, com umas 15 pessoas, emocionado, com a certeza de lembrar para sempre daquela personagem baixinha, esperta e sorridente.
A sessão acabou. O ar gelado de inverno passeava pela Rua da Praia, enquanto eu caminhava pela calçada com os olhos marejados, sem ter qualquer idéia de como descrever o que eu sentia naquele momento.
Três filmes que me fizeram ter sensações extremamente diferentes, mas que são coisas que só o cinema pode proporcionar. Ainda há poucas coisas que sejam tão boas quanto comprar um ingresso, escolher um lugar para sentar, esperar as luzes se apagarem, e mergulhar para um lugar distante se deixando envolver por sentimentalismos ficcionais.
Mas se for pra parar e pensar um pouquinho, não tão ficcionais quanto aparentam.
* Mr Nobody me fez psicografar algumas frases e histórias um tempo após assistir ao filme. Uma hora elas irão aparecer aqui.
Apenas para reiterar o que foi dito abaixo, este espaço se define como uma bacia, cujo objetivo é que depositemos nela nosso vômito verbal (perdoem-me a expressão), seja ele desprovido de forma, mas de conteúdo razoável, ou formalmente adequado, mas de conteúdo enjoado e, por vezes, sem valor algum. Este lugar, virtualmente concebível, é um lugar de leitura; leitura e interação; interação com aquilo que foi lido. E quando me refiro a leitura, não estou apenas me referindo à simples decodificação de um código linguístico, e sim, à leitura de diversos tipos de linguagens: textos, filmes, pinturas, etc.
Bom, com essa pequena exposição acerca do propósito deste espaço, seja da minha parte, seja da parte do Ricardo, introduzimos a tentativa de criar algo que possibilite o diálogo entre os pensamentos desordenados que permeiam nossa mente ( determinantes para a escolha do nome do blog), e a concretude rotineira.
É possível dar início a um blog com a única intenção de ter um espaço nessa fatia gigante da internet, em que seja possível publicar textos sem que estes sejam plagiados, fazer comentários relevantes sobre filmes assistidos, usar palavras soltas sem nem ao menos uma rima, percepções, poemas (?) e escrever sobre coisas estranhas que acontecem, sendo a maior pretensão, talvez, deixar isto apenas registrado por um certo tempo? A internet dos dias de hoje, bem diferente da discada do início de século XXI, nos dá esta possibilidade, sendo que a maioria das pessoas já teve um blog alguma vez na vida. E é com este pensamento confuso que mais um surge. Cadela Desalmada. O nome? Só poderia ser um tão estranho e caótico quanto estas duas pessoas que pretendem aqui escrever.
Quem quer que tenha aqui chegado, que venha com o rastro de uma mente aberta. Ninguém precisa provar nada, é apenas uma necessidade de expressar certos sentimentos traduzidos em palavras.
Que seja então aberta de uma vez por todas esta porra deste blog.