terça-feira, 19 de outubro de 2010

Batom vermelho

Na xícara de café suja
A marca do amor comprado
nas seções de jornais

O batom vermelho tinge
o ímpeto animal,
sacia
Tece as horas
Nos corpos dominicais


Christian Pizzolatto

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

CROAC

No meu sonho estranho, eu me sinto bem. Não há mais vergonha, eu não sou mais tímido. Consigo pronunciar o que penso facilmente. Eu ando com uma postura digna. Sem medos. Sem receios. É noite. O clima é agradável. Eu estou de bom humor. As pessoas ao meu redor aparentam aproveitar a noite, assim como eu. As calçadas são largas, assim como o asfalto e as lojas. Anda-se pela rua com tranqüilidade. Não há pressa. Encosto em um muro, algumas pessoas andam de skate. A luz amarela-alaranjada é acesa, pois começa a escurecer. Garotas passam por mim. Não olham. Seguem para aonde for, menos aqui. Um cheiro agradável viaja pelo ar, até se fazer notar pelo meu nariz. Resolvo caminhar mais um pouco. Acabo entrando em um parque. As luzes lentamente vão ficando para trás, enquanto meus passos fazem cada vez mais barulho. Sinto a umidade da grama em meus pés. Começa a ventar forte. Seres passam ligeiramente dentre as árvores. O escuro é total. Eu avisto um rio. Toco-o com minhas mãos. A civilização parece não mais existir. O céu é muito azul. Avisto luzes coloridas piscando em algum ponto distante dali. Piso em madeira envelhecida. Ela quebra e faz barulho. Eu me sinto só. Parece que sou observado. Encontro uma barraca abandonada, com luzinhas penduradas em um fio. Dentro da barraca há um cobertor e uma lanterna junto de um livro antigo. Eu me deito e adormeço.

Acordo com as roupas bagunçadas. Sinto um perfume conhecido. Inalo o máximo que consigo. Ela esteve aqui. Passou a noite comigo. Eu sei. Tento abrir o zíper da barraca. Não consigo. O perfume me enlouquece. Eu continuo tentando inalar o máximo que posso. Sinto o espaço na barraca diminuir. Ouço vozes do lado de fora. O perfume ri de mim. Eu já não tenho mais espaço. A lona da barraca me espreme. Mal consigo respirar. A risada fica mais forte. Ensurdecedora. E continua a gargalhar enquanto a barraca me engole. Eu mergulho profundamente nas minhas lembranças e não encontro ninguém. Não acordo mais do meu sonho.


O silêncio impera no ambiente, a não ser pelo barulho de um sapo e da barraca fazendo a digestão.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Os Melhores Filmes da Década de 2000


Já está lá no site Cine Revista, a minha lista dos melhores filmes da década. Foi com muito prazer que aceitei o convite do meu amigo, Adriano de Oliveira. Crítico de cinema e criador do site, Adriano vêm mantendo o site há 6 anos com críticas construtivas e opiniões bem elaboradas. Uma grande dica pra quem gosta de cinema.

A elaboração da lista foi complicada. Porque sempre algum filme bom vai ficar de fora. Mas a fiz com o pensamento de que esses sejam talvez os essenciais.

Link para a lista: http://www.cinerevista.com.br/artigos/ListaDecada00RLubisco.htm

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A Criatura perdida pelos cantos vive

Folha de alumínio molhada. Ele a vê sob a superfície da pia, e não dá a mínima bola. São 05h53min da manhã, o dia está nascendo, o sol está nascendo, e ele está morrendo. O macaco perdido em sua jaula, na transição de madrugada para dia. Tudo que pertencia a ele acabava ficando para trás, e só retornava quando tudo escurecia. Sua mente voltava a funcionar como o motor de uma máquina que tem hora pra começar a trabalhar. E era assim com ele. Perdido no imenso vazio de seu apartamento, na madrugada de Porto Alegre. Mas poderia ser em qualquer lugar. Imagino que até mesmo se ele estivesse em uma missão espacial, dentro de um foguete em direção a lua, seria a mesma coisa. Ele olharia para os buracos negros por toda a extensão de um céu preto. Infinito e póstumo. Não estaria mais isolado do que neste mundo habitado por milhões de pessoas que nascem todos os anos, e crescem todos os anos, e se tornam animais que ele sempre acaba conhecendo. Até porque as pessoas realmente interessantes não existem à sua volta. Parece até algum tipo de maldição. Seria algo que ele fez em alguma vida passada, nos primórdios do universo? Por que essa ligação com o Universo, em geral?!


Não, não adianta. Ele não sabe! Ele sente, mas não sabe. Sente seu corpo flutuar por corredores negros recheados de estrelas brilhantes iluminando o caminho infinito. O próprio macaco no espaço; viajando por entre várias formas de vida e sons. Principalmente sons, que ele não reconhece, mas que sempre acabam lembrando-o de alguma música que ele escutou enquanto ficava trancado no seu apartamento na Rua Teodoro Piñero. Viveu tantos anos lá. Lembra de viver sentado em cima das caixas de cerveja que tomava toda noite pra agüentar a sua vida tão sem graça. E ele por uma crise psicológica interna, saía pouquíssimo de casa. Muito pouco mesmo. Então o lixo acabava ficando dentro da casa dele mesmo. Mais propriamente na sala, onde ele ficava a maior parte do tempo. Colchão, sofá, computador, TV, vídeo-game, livros, cd’s, dvd’s. Ele trabalhou durante muito tempo. Mas cansou de manter contato com outros humanos, então juntou dinheiro para poder ficar hibernando em casa durante alguns meses.


Esses poucos meses acabaram durando dois anos e meio.



Uma bela madrugada, fria e seca, mudou completamente a vida dele. Porque no meio de toda aquela sujeira, ele encontrou um guarda-chuva. Logo ele, que nunca gostou de usar guarda-chuva. Fazia tanto tempo que ele não via um guarda-chuva, que ficou tateando o negócio preto até perder a curiosidade. Quando isso aconteceu, ele o abriu, ali, no meio da sala mesmo! Uma madrugada fria e seca, que ventava muito. E quando ele nem prestava atenção ao vento do lado de fora da sua janela, sentiu uma sucção vindo de cima. Notou que logo em cima dele não havia mais telhas, muito menos forro. Um enorme buraco mostrava a ele a lua, as estrelas, e aquele céu azul escuro negro, de uma boa madrugada de inverno no Rio Grande do Sul. Sem mais nem menos, começou a subir. Subiu, subiu, subiu e foi indo. Fazia tanto tempo que ele não saía pra dar uma volta, que resolveu acender um cigarro pra aproveitar o passeio. Quando estava chegando perto de uma nuvem, cruzou com um macaco que usava um chapéu, daqueles de festinhas de aniversário infantis. O macaco flutuava em uma calota de carro, e ia em direção oposta à que ele estava indo. Ele até levantou brevemente a mão para cumprimentar o macaco, mas não obteve qualquer reação.


Imaginou que o macaco estava feliz. Assim como ele estava.

E foi por aí, subindo, subindo, subindo.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Inter - Bi Campeão da Libertadores da América


Sou colorado desde que eu me lembro de começar a assistir futebol. Não sei ao certo quantos anos eu tinha, mas é por volta dos meus 6 ou 7 anos de idade. Nunca fui aquele torcedor de freqüentar o Beira-Rio todo domingo, porque a minha mãe apesar de ser colorada, nunca foi muito de ligar para futebol, porque meu pai faleceu quando eu ainda era muito pequeno, sendo que eu nem sei ao certo se ele era colorado ou gremista, e a minha irmã mais velha era gremista. E é por essas e outras coisas, que eu não sei ao certo dizer por que sou colorado. Só sei que desde a primeira vez que vi aquela camisa vermelha, com o S, o C, e o I se entrelaçando e formando o símbolo do Inter, eu vibrava. Sempre gostei da cor vermelha na camiseta, tinha prazer de ficar em casa assistindo os Gauchões, dizer que era colorado, e dormir de noite imaginando que um dia eu ainda jogaria naquele time. Nessa época da minha vida, com 9 anos de idade, o Inter não ganhava nada. Eu nunca tinha visto o time levantar uma taça. Em 1992, quando o Inter ganhou a Copa do Brasil, eu tinha apenas 5 anos, e não me lembro de absolutamente nada. Não tinha explicação eu torcer pelo Inter, porque ninguém nunca me encorajou a isso, nem me levou ao estádio para eu ver um jogo, não era o time que ganhava os campeonatos, nada. E ainda assim, eu me tornei colorado por natureza. Por grandeza.


Com 10 anos de idade, fui morar em São Paulo. E foi justo nesse ano, em 1997, que eu vi pela primeira vez o Inter levantar uma taça. O Gauchão de 1997. 1x0 em cima do Grêmio, gol do Fabiano se não me engano. Um golaço. Eu lembro de estar vendo de pé o jogo, e quando saiu o gol, eu alucinado dei um berro e um tapa na cara da minha irmã. Foi automático. Foi ridículo eu fazer isso, claro. Mas não foi por mal, foi por emoção. Eu não acreditava no que via. Meu time ia ser campeão Gaúcho e isso era a melhor coisa do mundo pra mim naquela época. Eu completei a minha coleção de mini-craques da Coca, em virtude da Copa de 1998, e ficava brincando com eles no chão com uma mini-bola, e fazia tabela de campeonato gaúcho, campeonato brasileiro, copa do Brasil. O Inter sempre era o campeão de todos eles de forma invicta, não preciso nem falar.

Em 1999, o Inter fez aquele jogo histórico com o Palmeiras no Beira-Rio. Uma vitória nos livrava do rebaixamento para a Segunda Divisão do Brasileiro. E não era uma partida a toa para o Palmeiras, que lutava pela classificação a próxima fase. Esse jogo eu vi trancado no quarto, sozinho, ajoelhado do lado da cama. E quando o Dunga fez aquele gol, eu não cansava de chorar e sorrir, tudo ao mesmo tempo, querendo que o jogo terminasse o mais rápido possível. E lá estava meu Inter, me orgulhando por não ter caído para a Segunda Divisão.

E morar em São Paulo e torcer para o Inter não era fácil. Na escola eu ouvia todo o tipo de zoação. Que o time de Porto Alegre era o Grêmio, que o Inter nunca tinha ganhado nada, que os títulos importantes eu nem era nascido para ver, que o Clemer no gol era um frangueiro, que eu tinha que torcer pra times de verdade que nem Corinthians, Palmeiras, São Paulo. E eu defendia o meu Inter, como podia. Porque esse meu sentimento pelo Inter, sempre foi algo inexplicável. Pra mim era como se fosse um irmão. Era o meu amigo. Era quem mais me deixava feliz e por quem eu mais me preocupava. Time de futebol não nos dá o sustento nem nada, mas o que sentimos por ele não poderia jamais ser comprado. Vêm do fundo do coração e quando ele ganha choramos de alegria, comemoramos. Quando perde, lamentamos e a vida fica um pouco mais nublada.

Resumindo: crescer e torcer pelo Inter, nos anos 90, foi uma prova de carinho pelo clube. Foi uma amostra involuntária de confiança na camisa vermelha histórica, de um passado de tantas glórias, que eu sequer tinha visto, mas sabia de cor. Era ter orgulho de poder ver, mesmo que fosse pela TV, o Beira-Rio, cheio de colorados apoiando, torcendo, e comemorando. Eu prestava atenção em cada faixa estendida no Estádio, e em como éramos todos apaixonados por este time.


Eu me lembro de ter um Cd com algumas músicas do Inter. E eu ficava cantarolando elas sozinho, antes dos jogos, sozinho no quarto. Era praticamente um ritual. Lembro de uma que era mais ou menos assim:

“Eu te amo, Internacional


Encanta o mar vermelho colorado


Joga bonito, dá show de bola


Mostra tua garra, ninguém segura, teu futebol


Sou Camisa 12


Vou jogar com você


Cantando, chorando com muita emoção


Que nasce do meu coração


Te amo, Te amo, Internacional


Te amo, Te amo, Internacional”

E assim os anos foram passando, em 2005 o Inter foi roubado no Campeonato Brasileiro e acabou ficando com o Vice-Campeonato. No começo de 2006, eu voltei a morar em Porto Alegre. O Inter ia disputar a Libertadores, coisa que eu nunca tinha visto. E não sei por quê, e eu acho que todo colorado deve ter sentido a mesma coisa, mas a sensação que eu tinha era que de alguma forma as coisas dariam certo. Mesmo antes de começar a Libertadores. Era a LIBERTADORES. Campeonato que eu sempre vi os times dos meus amigos disputarem, mas nunca o meu.

E como todos sabem, nós fomos campeões. E parecia inacreditável. Meu Inter. O Hino do meu time tocando sem parar, com o símbolo na tela, e os dizeres: INTER, CAMPEÃO DA COPA LIBERTADORES 2006. Claro que com muitas emoções nesse meio tempo, foi difícil, suado, do jeito que tinha que ser. Foi emocionante. Um título merecido e grande. Como nós.

No fim do ano, conquistamos o Mundial. Quando NINGUÉM além de nós acreditava. Ganhamos do todo poderoso Barcelona, do gremista Ronaldinho Gaúcho. Um gol do Gabiru e a expressão incrédula do Ronaldinho. Eu vi esse jogo em casa, e quando saiu o Gol, saí batendo na porta do apartamento e gritando, pulando, gritando mais um pouco na janela. Saí pra comemorar com milhares de colorados que foram as ruas e festejavam uma vida inteira de amor por um clube. Uma história de glórias em seu passado, e que agora eram revividas de forma muito maior.

Sempre revejo os jogos da Libertadores e do Mundial no Youtube, e sempre me arrepio e encho o meu peito cada vez mais de orgulho. As narrações dos gols, as comemorações, as entrevistas, as matérias, tudo. Tudo mesmo. Tudo relacionado as nossas conquistas e batalhas.
E nesta semana que passou, o Inter conquistou o Bi Campeonato da Libertadores. Coisa que eu achei que não veria de novo tão cedo. E ainda podemos conquistar o Bi Campeonato Mundial.

O que eu tenho a dizer de tudo isso?

Inter,
obrigado por ser um clube tão grande. Obrigado por tantas alegrias, e até mesmo pelas eventuais tristezas e decepções. Crescemos com elas e nos tornamos o maior time de futebol do mundo. Porque nós fomos Campeões Mundiais. Fizemos o mundo ver um time do Sul do Brasil. Pintamos a Terra de Vermelho. O que eu sinto por ti, é indescritível, porque toma conta de mim. Eu me arrepio quando escuto o Hino, quando vejo os filmes, os documentários, quando leio a história do clube, da determinação de um povo em fazer o seu time ser grande, quando ouço a história dos torcedores levarem tijolos para ajudar na construção do Gigante. Do Inter ser o Clube do Povo, sem preconceitos. Quando vejo o manto vermelho.

Enfim, esse sentimento não tem fim. Jamais.
Sou colorado, e com muito orgulho. Por ter passado por momentos difíceis, e nunca ter deixado de torcer ou defender o Inter. Somos um clube grande. Somos campeões de TUDO. E queremos sempre mais. Parte de mim é muito feliz por poder ter presenciado estas grandes conquistas do clube, por ter torcido até a voz se esgotar e eu passar a semana rouco. Por todos os amigos colorados que fiz ao longo dos anos.


...não importa o que digam, sempre levarei comigo, minha camisa vermelha...




quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Crise

Um papel. Canetas que não escrevem. Uma vida que não que sai de baixo das cobertas. O cheiro de mofo e a coloração escura das extremidades do quarto. Um abajur à meia luz. Amarelada. Roupas que pendem entre uma porta e outra do armário. Pensamentos que pendem; rolam em direção ao ralo escuro e úmido da inconsciência. Cigarro aceso entre os dedos amarelados. Reflexo da luz do abajur. Nenhuma tragada. Não há inspiração, só suspiro. Um copo marcado com lágrimas escurecidas; secas. Garrafa de vinho vazia. Duas garrafas. A boca e o nariz manchados. O cinzeiro povoado. Baganas e cinzas. Vento grave. O vidro gelado dança descompassado. A morte abafada de baixo das cobertas. Lápis sem ponta. Um papel manchado de sangue. Sangue sem vida.



Christian Pizzolatto

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Frágil

Você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.

Caio Fernando Abreu